O tráfico e o filho da desembargadora: por que só os pobres ficam na cadeia? Por Joaquim de Carvalho

VIA: DCM

O levantamento mais recente sobre o perfil dos presos no Brasil revelou que um terço está relacionado ao tráfico de drogas. O número de presos por esse tipo de crime aumentou quase 340% desde 2006, quando uma nova lei, mais rigorosa com o tráfico, entrou em vigor.

Ao mesmo tempo em que pessoas sem nenhuma passagem anterior pela polícia ocupam os presídios, surgem casos de impunidade, sempre relacionados a pessoas bem posicionadas na sociedade.

No início do ano, o Superior Tribunal de Justiça confirmou a condenação a quatro anos e 11 meses de prisão de um homem preso em flagrante por entregar a outro um cigarro com 0,02 grama de maconha.

Já a Justiça Federal do Espírito Santo ainda não julgou os quatro homens apanhados tentando desembarcar 445 quilos de cocaína de alta pureza, há quase quatro anos.

O que havia de diferente nos dois casos, além da brutal diferença de quantidade de droga apreendida?

O homem condenado a quatro anos e onze meses de prisão já se encontrava preso na Cadeia Pública de Cataguases, Minas Gerais, quando um policial civil o viu entregar a outro detento um pacotinho com a maconha, tão pequeno que era difícil enxergar de longe. Seria um pouco mais grosso que um palito de fósforo.

Já os 445 quilos de pasta base de cocaína foram apreendidos por uma força tarefa que uniu policiais federais e policiais militares do Espírito Santo e estavam sendo descarregados do helicóptero da família do senador Zezé Perrella, também de Minas Gerais.

A quantidade de drogas era tanta que encheu o porta-malas do Volkswagen Polo que aguardava no interior de uma fazenda pela chegada da droga, embarcada no Paraguai.

O helicóptero foi devolvido à família do senador, apesar da legislação prever o confisco de bens usados no tráfico. Os pilotos foram soltos seis meses depois do flagrante, assim como dois ajudantes. Já o presidiário de Cataguases vai passar mais alguns anos trancado na cadeia.

Agora, do Mato Grosso do Sul, vem a notícia de que o filho da presidente do Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso do Sul, a desembargadora Tânia Garcia de Freitas Borges, foi solto, apesar das provas que existem do envolvimento dele com o tráfico de drogas.

Tânia, desembargadora e agora tutora de um acusado de narcotráfico e ligações com o crime organizado.

Breno Fernando Solon Borges, de 37 anos foi preso pela Polícia Rodoviária Federal em abril deste ano, com 130 quilos de maconha, 199 projéteis calibre 7.62 e 71 projéteis de pistola 9 milímetros, munição para armas de uso restrito das Forças Armadas.

O empresário é dono de metalúrgicas e serralherias em Campo Grande e outros estados, como Paraná e Santa Catarina, e foi preso pela Polícia Rodoviária Federal quando viajava com a namorada e um funcionário dele, em dois carros.

Interrogado, o filho da desembargadora não revelou a origem do armamento e das drogas e nem dos supostos compradores. Já tinha passagem pela polícia, por porte ilegal de arma, e era investigado sob a suspeita de participar de um esquema de tráfico de drogas e armas para traficantes do interior de São Paulo, utilizando como fachada a participação em corridas de motos.

O nome de Breno também apareceu numa investigação que apurava um plano para resgatar presos.

Nas redes sociais, ostentava uma vida de luxo.

Para ser liberado, seus advogados apresentaram um laudo médico que atribui a ele Síndrome de Borderline”, doença “consiste basicamente no desvio dos padrões de comportamento do indivíduo, manifestado através de alterações de cognição, de afetividade, de funcionamento interpessoal e controle de impulsos.”

O site Campo Grande News cobriu o caso e informou que, em uma das tentativas de libertar Breno, com o laudo em mãos, a mãe, presidente do TRE, se ofereceu como tutora para o filho ser internado em uma clínica médica. O juiz de primeira instância negou, dada a gravidade da acusação.

Na sexta-feira passada, o desembargador Ruy Celso Barbosa Florence tomou uma decisão diferente: liberou Breno da prisão. O compromisso assumido pela defesa é que ele se submeterá a tratamento psiquiátrico adequado, sob a tutela e responsabilidade da mãe, que se comprometeu a levá-lo a todas as audiências do processo.

Enquanto isso, as cadeias em todo o Brasil enfrentam o problema da superlotação por conta da chegada de novas levas de acusados de tráfico. Casos como o do presidiário condenado por conta de 0,02 gramas de maconha. Muitos dos presos são mulheres e negros, quase todos são pobres.

Munição apreendida com o filho da desembargadora: suspeita de que ele ajudaria no resgate de presos.

Policial confessa ter matado travesti na PB: ‘matou por não gostar de homossexual’, diz Polícia Civil

01-Bandeira-LGBT.jpg

Via: G1

Vítima foi ferida a tiros quando se aproximou de sargento reformado da PM, enquanto ele bebia.

 

Um sargento reformado da Polícia Militar da Paraíba foi preso suspeito de matar uma adolescente travesti de 16 anos. O crime ocorreu na cidade de João Pessoa, no último sábado (8), e o policial foi preso nesta terça-feira (11), na cidade de Teixeira, no Sertão paraibano. O policial teria confessado o crime, na delegacia, e dito que “matou por não gostar de homossexual”, segundo informou a Polícia Civil.

O assassinato aconteceu em uma praça do bairro Funcionários II, em João Pessoa. De acordo com informações da Polícia Civil, o sargento reformado da PM estava bebendo, quando a adolescente travesti se aproximou dele. O sargento teria levantado da mesa, sacado a arma e atirado várias vezes contra a vítima, que morreu ainda no local, conforme informou a polícia.

Ainda de acordo com a Polícia Civil, depois de cometer o crime, o suspeito teria fugido da cidade. O sargento foi preso na casa de um parente na cidade de Teixeira, após o órgão receber uma denúncia anônima.

Depois de ser preso no Sertão pelo delegado Reinaldo Nóbrega, o policial foi levado até a Central de Polícia de João Pessoa, no Geisel, para prestar depoimento. Na delegacia, segundo a Polícia Civil, ele confessou o crime e alegou que foi motivado “por não gostar de homossexual”.

Por ser policial militar, o sargento foi encaminhado para o 1º Batalhão da Polícia Militar, no Centro de João Pessoa, e, nesta quarta-feira (12), será apresentado ao juiz na audiência de custódia.

Ator da Globo é condenado a indenizar recepcionista de hotel que xingou de “favelado” e “vagabundo”

Do HuffingtonPost:

brunodeluca.jpg

Pedir para baixar o som alto no meio da madrugada.

Foi isso que um recepcionista do Hotel Majestic, em Florianópolis, fez que irritou o ator Bruno de Luca.

Em resposta, o ator e apresentador Bruno de Luca não mediu suas palavras. Xingou o recepcionista de “favelado”, “filho da puta” e “vagabundo”. O agrediu física e verbalmente.

Resultado: o ator foi condenado na última quinta-feira (6) pela Primeira Câmara de Direito Civil do Tribunal de Santa Catarina a pagar R$ 15 mil de indenização. Cabe recurso ao ator.

Segundo informações do jornal O Estado de S.Paulo, a vítima relatou que os vizinhos de quarto de Bruno reclamaram do barulho que vinha do quarto.

O ator chegou com amigos ao hotel por volta de 5h da manhã e começou a tocar música. O recepcionista ligou no quarto duas vezes, o ator não atendeu, foi pessoalmente e ele não abriu a porta.

Em seguida, o ator desceu acompanhado da atriz Lívia Lemos, que não é ré nem foi arrolada como testemunha na ação., e insultaram o funcionário.

Testemunhas afirmaram que os atores estavam alcoolizados e a atriz chegou a bater no recepcionista.

Ser gay é crime em 72 países, diz relatório

protesto-lgbt-russia-20170620-001.jpg
Manifestantes tentam rasgar uma bandeira do arco-íris durante encontro da comunidade LGBT no centro de Moscou, na Rússia – 30/05/2015 (Maxim Zmeyev/Reuters)

Em oito nações, homossexualismo é punido com pena de morte

Via: VEJA

Apesar das relações homoafetivas terem adquirido uma série de vitórias nos últimos anos, ser gay ainda é considerado crime em 72 países. Em oito deles, a manutenção de relações homoafetivas pode levar até mesmo a morte, segundo o relatório mais recente da Associação Internacional de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Transexuais e Intersexuais (Ilga).

O estudo, publicado no mês passado, revelou ainda que a proteção e o reconhecimento dos direitos dos homossexuais aconteceu apenas em países doda América no norte e em alguns do sul, na Austrália e na maior parte da Europa.

Por outro lado, a criminalização se estende por boa parte da Europa Oriental, da Ásia, da África (exceto África do Sul, Ilhas Seychelles e Cabo Verde), e em parte da América Central e da América do Sul.

MBL apaga post em que chamava professores universitários de vagabundos

mbl-apaga-post-professores-vagabundos.jpgMBL diz que professor de universidade pública não trabalha, apaga postagem após repercussão negativa mas internautas resgatam imagem. Crítica foi feita após professor-doutor reclamar de salários atrasados.

Lola Aranovich, em seu blog

Eu lembro quando, uns cinco ou seis anos atrás, um reaça patrocinado pelo governo Alckmin para atacar pessoas de esquerda veio no meu Twitterdizer que professor universitário não trabalha. Eu só joguei pra torcida — olha o que esse cara tá falando. A reação foi forte, e o sujeito teve que apagar o tuíte rapidinho. Afinal, qualquer pessoa minimamente inteligente sabe que professor (seja universitário, seja do ensino fundamental ou do ensino médio, seja da rede pública ou privada) trabalha pacas.

O tempo passa, o tempo voa, o Brasil está infinitamente pior do que há meia década, mas os reaças não mudam. Continuam odiando professores, que querem controlar através da Lei da Mordaça, também conhecida como Escola Sem Partido. Acreditam que todo professor é de esquerda, o que me faz pensar se essa gente já entrou numa sala de aula ou, no mínimo, numa sala de professores.

Semana passada foi a vez de outros reaças manifestarem seu ódio por professores.

Começou assim: o professor de Engenharia Química Evandro Brum Pereira, 61 anos, da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), um dos 207 mil servidores que não receberam o salário de abril, foi para a rua com um cartaz mostrando suas credenciais (mestrado, doutorado e pós-doutorado no exterior, professor na UERJ há 19 anos, fluente em inglês, francês e espanhol) e pedindo: “Alguém pode me arrumar um trabalho? Afinal, preciso pagar minhas contas”.

A atitude de Evandro gerou grande repercussão, e ele recebeu várias propostas — uma delas para lecionar no exterior. Mas recusou. Justificou-se: “Eu sou professor com dedicação exclusiva da Uerj. Amo o que faço, amo dar aula. Continuo na Uerj sim. É um apelo que a gente faz: olhem com carinho nossa situação. Tentem solucionar isso o mais rápido possível. Precisamos comer”.

Evandro é um dos funcionários públicos que está sem receber seu salário depois que o Rio, enterrado pela corrupção, decretou estado de calamidade. Hoje foi publicada uma reportagem sobre aposentadas que tiveram que voltar a trabalhar (vendendo bala, por exemplo), porque seu benefício deixou de ser pago. Vários auxiliares acumularam dívidas (e, consequentemente, problemas de saúde) e vivem de doações. Grande parte ainda não recebeu o 13º salário de 2016. É uma situação desesperadora: imagine trabalhar e não ganhar salário? Não ter dinheiro para pagar as contas, que não deixam de chegar?

Bom, o MBL (Movimento Brasil Livre) decidiu pegar carona na repercussão do cartaz do professor para criar um de seus memes. Usando a imagem de Evandro (certamente sem sua autorização), o movimento escreveu: “Professor concursado recusa proposta da iniciativa privada. Lá tem que trabalhar pra receber”.

mbl chama professores vagabundos esquerda ódio

Ironicamente, ninguém sabe ao certo o que o MBL faz da vida ou como sobrevive. Sabemos que o MBL é aquele grupo que organizava manifestações para derrubar um governo legitimamente eleito e combatia a corrupção, enquanto posava ao lado de Eduardo Cunha e outros políticos não exatamente honestos. Ninguém sabe quem patrocina o MBL, pois suas contas não são nada transparentes. Obviamente não é um grupo apartidário. Uma de suas metas é o fim do PT. Há fortes suspeitas que eles têm apoio de grupos internacionais de direita (como os bilionários irmãos Koch) e de caixa 2 de partidos como o PMDB, PSDB, DEM e Solidariedade.

É um movimento de direita, isso está claro. E sabemos que a direita é contra universidades públicas e gratuitas. Um de seus líderes, Kim Kataguiri, alegou ter largado o curso de Economia na UFABCporque não tinha nada a aprender com seus professores. O guru de toda a direita brazuca, Olavo de Carvalho, é também um sem-diploma que vive falando mal das universidades brasileiras e seus professores.

Porém, o meme do MBLdialogando” com o professor da Uerj bate recordes de mau caratismo. Não é que o professor se nega a trabalhar e quer receber. É contrário, estúpido: o professor trabalha, e não recebe. Mas a ideologia do MBL vai além: ela é contra professor concursado.

Ué, reaças não são a favor da meritocracia? E querem acabar com concursos? Querem que professores e demais servidores sejam contratados como, por QI (Quem Indica)?

Depois, quando essa gentinha minúscula é chamada de “golpista” num aeroporto, vem choramingar nas redes sociais, dizendo-se hostilizada. Quando algum professor perguntar pra um desses pilantras: “Foi o seu movimento que escreveu que professor não trabalha?”, o MBL vai fazer algum manifesto contra a doutrinação comunista nas salas de aula.

Mas acho importante você que é professor ou aluno ou simplesmente alguém que valoriza a educaçãopública saber: reaças odeiam professores. E mentem em alto e bom tom que não trabalhamos.

Crivella compara discussão sobre carnaval do RJ com cólicas de parto

garotinhocrivella.jpg

O prefeito Marcelo Crivella disse, nesta segunda-feira (19), que não vai voltar atrás na decisão de cortar verba das escolas de samba para o carnaval de 2018. A afirmação foi feita durante a inauguração do mural de 2500 metros quadrados da Escola Rivadavia Corrêa , no Centro. O mural

“Acho que vou criar o bloco ‘é conversando que a gente se entende’. Estamos enfrentando uma crise e as crianças e as creches são prioridades. Temos de reavaliar e corrigir os custos do ano passado, quando houve um aumento do subsídio num momento de euforia”, afirmou Crivella.

O prefeito também comparou a discussão sobre o carnaval com as cólicas de um parto.

“Cólicas não são pra desanimar. As cólicas de uma mulher que vai dar à luz são redentoras”, disse o prefeito que espera que da discussão nasça uma solução para o problema”, completou.

À tarde, representantes da Liesa vão se reunir com o presidente da Riotur, Marcelo Alves.

Leia mais no G1.

AUDIÊNCIA DO JN DESABA E PERDE ATÉ PARA A NOVELA ‘PEGA PEGA’

images|cms-image-000549744 cópia.jpg

Da Revista Fórum – Na última quarta (14), a novela “Pega Pega” chegou a passar o “Jornal Nacional” em audiência. A novela marcou 27,7 pontos e o noticiário ficou em 27,1. Cada ponto equivale a 199,3 mil espectadores.

Das duas uma. Ou a novela é, de fato, muito boa ou, o que é mais provável, as pessoas estão fartas e desacreditadas do noticiário do JN, que mais do que apoiou, operou o impeachment de Dilma e o consequente governo desastroso de Temer.

Agora, é obrigado a passar pelo constrangimento de noticiar o mar de lama que virou o Palácio do Planalto e seus ocupantes, divulgando provas, depoimentos e gravações diariamente, como se não tivesse nada a ver com o assunto.

*Com informações da Folha

MARTA REJEITA EMBARCAR NO TITANIC DE TEMER E RECUSA CULTURA

images|cms-image-000493958.jpg

Ministra da Cultura no governo da presidente legítima Dilma Rousseff, a senadora Marta Suplicy (PMDB-SP) rejeitou o convite de Michel Temer para reassumir a pasta; nesta sexta-feira, Temer levou um sabão do interino João Batista de Andrade, que se queixou do descaso com o setor

Via: Brasil 247 – Ministra da Cultura no governo da presidente legítima Dilma Rousseff, a senadora Marta Suplicy (PMDB-SP) rejeitou o convite de Michel Temer para reassumir a pasta.

“O convite foi feito há algumas semanas, antes do pedido de demissão do ministro interino João Batista Andrade. O governo já não tinha a intenção de efetivá-lo por causa de desgastes envolvendo a nomeação da presidência da Ancine (Agência Nacional de Cinema). Andrade queria que a produtora Debora Ivanov ocupasse o cargo, mas o governo Temer preferiu outra indicação”, informa a jornalista Mônica Bergamo.

Nesta sexta-feira, Temer levou um sabão do interino João Batista de Andrade, que se queixou do descaso com o setor.

Crise e paranoia estimulam o crescimento do neonazismo no Brasil, diz pesquisadora da Unicamp

POR KAROL PINHEIRO

maxresdefault.jpg
NeoNazistas fazem “ato cívico” pró-Bolsonaro em São Paulo.

Via: Diário do Centro do Mundo

“Mais coragem para o nosso sangue vienense, estrangeiros demais não fazem bem a ninguém”. O slogan do FPÖ (Partido da Liberdade da Áustria) para a corrida eleitoral à presidência da Áustria, em 2016, flagrantemente flertava com o vocabulário nazista, que enfatiza a pureza da raça.

O discurso do partido fundado por ex-nazistas conquistou os eleitores austríacos e por muito pouco (exatos 31.026 votos), o candidato Nobert Hofer não venceu a corrida presidencial. Ainda que no segundo turno o FPÖ tenha perdido a eleição, a ascensão de um partido que desde sua criação vivia nas sombras foi um incentivo a mais para outras formações que se movem no mesmo espectro e que têm crescido no mundo inteiro.

“Todos os povos têm certo grau de paranoia. A extrema-direita historicamente se aproveita dessa paranoia para crescer, principalmente se tiver ao seu lado um líder carismático. Essas lideranças têm grande capacidade de se comunicar com a massa, principalmente se a massa estiver ressentida por viver em anos de dificuldade e restrições”, afirma a antropóloga Adriana Dias, da Unicamp, pesquisadora do neonazismo.

Se o nacionalismo exacerbado floresce em tempos difíceis, a Europa é um terreno fértil. Depois da maior crise econômica desde o pós-guerra, o continente enfrenta ainda baixo crescimento e uma taxa de desemprego que insiste em não baixar. A crise migratória desestabilizou ainda mais o continente, evidenciando que os governos de centro não tinham políticas eficazes para a questão. É desse vácuo que os movimentos de extrema-direita têm se aproveitado.

Nos Estados Unidos, não é diferente. “Com a industrialização dos Estados Unidos, o homem do campo, branco, aquele típico cowboy americano, teve de ir para a cidade e se ocupou no subemprego. O discurso da direita americana, na figura de Donald Trump, foi de que o latino, o muçulmano, lhe tiraram ‘o lugar de direito’. Ao prometer gerar empregos e barrar a entrada desses povos, Trump deu esperança ao cowboy. É semelhante ao que Hitler prometeu e fez”, compara Dias.

O Brasil não escapa da escalada da extrema-direita. Divulgada no último dia 15 de fevereiro, a pesquisa CNT/MDA sobre as intenções de voto para as eleições presidenciais de 2018, mostrou que o candidato mais lembrado espontaneamente depois de Lula é o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ).

Em alguns cenários analisados pela pesquisa, Bolsonaro – que nunca disputou pleito presidencial -, ostentou uma porcentagem de intenções de votos que o coloca na frente ou tecnicamente empatado com nomes tradicionais da corrida presidencial, como Aécio Neves e Marina Silva.

Estimulados pela onda radical que paira sobre o atual cenário mundial, a movimentação de grupos neonazistas tem crescido no Brasil. Uma reportagem da BBC Brasil do dia 18 de janeiro revelou que policiais da Delegacia de Repressão aos Crimes Raciais e Delitos de Intolerância da Policia Civil (Decradi) de São Paulo constataram nos últimos seis meses uma movimentação acima do normal de grupos neonazistas.

Na ocasião, a Polícia Civil cumpriu mandados de busca nas casas de quatro membros de um grupo extremista, suspeitos de colar cartazes de natureza antissemita na região central da Capital. Segundo a Polícia, os grupos neonazistas são formados por pessoas das classes média ou baixa.

Neonazistas na Alemanha
Neonazistas na Alemanha

 

Há 14 anos Adriana Dias estuda o fenômeno. Ela calcula existirem cerca de 300 células neonazistas no Brasil, que atuam predominantemente no sul do país, mas têm crescido vertiginosamente no Distrito Federal, em Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, a maioria inspirada em grupos neonazistas dos Estados Unidos, da Rússia e do leste europeu. São integrantes desses grupos que aparecem com mais frequência como agressores de negros, gays e em pancadarias entre torcidas organizadas.

“Hoje, mais de 300 mil pessoas leem material neonazista no país, ou seja, baixou mais de 100 arquivos, de mais de 100 megabytes, em um ano, sobre o assunto. Ainda que a gente faça um corte de pesquisadores, jornalistas e outros grupos que, como eu, estudam o assunto, sobra gente. É evidente que não necessariamente essas pessoas são nazistas, mas, sem dúvida, ao consumirem tal material tornam-se preparadas para serem iniciadas numa célula”, completa a especialista.

Para a pesquisadora da Unicamp, o florescimento de grupos neonazistas no Brasil é favorecido pelo incessante discurso autoritário ao qual a população tem sido exposta por meio dos partidos políticos de extrema-direita, e em especial por movimentos sociais de discursos semelhantes, como o Movimento Brasil Livre.

Como em muitos países apologia ao nazismo é crime, partidos como o FPÖ, da Áustria, e seus simpatizantes não se denominam nazistas. Em geral, se intitulam “defensores das tradições”, “libertadores”, “nacionalistas”, “guerreiros da nação”, entre outros eufemismos.

As células neonazistas são bastante heterogêneas, por terem concepções diferentes sobre como chegar ao objetivo – a predominância absoluta da raça ariana. Mas, no fundo, todas preservam e seguem os ingredientes fundamentais da receita nazista – o antissemitismo, o ultranacionalismo e a eugenia, embora incluam-se de tempos em tempos novos alvos de discriminação, a depender da configuração geográfica. “No Brasil, historicamente o ódio ao imigrante, por exemplo, é transferido aos nordestinos nos estados do sul”, pontua a antropóloga.

Na opinião de Adriana Dias, o combate ao preconceito de matriz nazista passa pela criação de uma Lei de Crime de Ódio. “Hoje, não há diretrizes do que se fazer nesses casos. Alguns crimes são investigados pela polícia local, outros pela Polícia Federal. O fato de a jurisdição não ser clara, nem quem investiga o quê e como, quebra o processo investigatório e, consequentemente, de julgamento”.

Ela conta ter estruturado um Projeto de Lei, mas vê dificuldades para fazê-lo chegar ao Legislativo e, posteriormente, ser aprovado: “Na atual conjuntura, não haveria interesse em passar tal projeto. A criminalização do ódio seria a criminalização da extrema-direita. Essa que se valeu da crise política para crescer”.

Um preocupante experimento foi feito pelo diretor de cinema alemão David Wnendt durante as filmagens do longa “Ele está de volta”. Wnendt recrutou o desconhecido ator Oliver Masucci, vestiu-o de Hitler e fez com ele uma turnê pela Alemanha, registrando sua interação com a população. O filme mostra cenas reais de diálogos entre o ator caracterizado de Hitler e os alemães, que confessavam sua insatisfação com os estrangeiros e refugiados recebidos no país. Para eles, esses grupos estariam destruindo a Alemanha.

Em determinada cena, “Hitler” consegue convencer um grupo de torcedores de futebol a atacar um ator que fazia comentários antigermânicos – neste momento, particularmente, foi necessária a intervenção do diretor e dos câmeras para evitar o pior.

Em 300 horas de gravação, somente duas pessoas reagiram negativamente ao experimento. A certa altura do filme, Oliver Masucci, como Hitler, conclui que “tem bom material de trabalho pela frente” para construir seu Quarto Reich, uma sociedade pronta para odiar.

Cena do filme "Ele Está de Volta"
Cena do filme “Ele Está de Volta”

Leia mais: NeoNazistas fazem “ato cívico” pró-Bolsonaro em São Paulo. https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2011/04/06/neonazistas-ajudam-a-convocar-ato-civico-pro-bolsonaro-em-sao-paulo.htm?cmpid=copiaecola