No Jockey Club do Rio, crise faz elite ficar sem champanhe

Via: Estadão

Movimentação no Salão das Rosas se parece mais com uma cena dos anos 1920, muito distante dos dias turbulentos que o País tem passado em 2017

Na exclusiva sala VIP do Jockey Club do Rio de Janeiro, com vista para o hipódromo e o Corcovado, a crise política e econômica parece algo muito distante. Mas os ricaços do País também têm passado por maus bocados. À sua maneira.

“Costumávamos beber champanhe”, disse Teresa Aczel Quattrone, uma carioca de 70 anos com um enorme chapéu bege e um colar de perólas, durante o Grande Prêmio Brasil, realizado no domingo, 11. O evento é considerado a mais importante corrida de cavalos do ano. “Agora, só bebemos cerveja”, lamenta Teresa.

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No jóquei, o “dress code” é o item mais valorizado Foto: AFP

À primeira vista, a movimentação no Salão das Rosas se parece mais com uma cena dos anos 1920, quando o Jockey carioca foi inaugurado, do que com turbulento ambiente que o Brasil vive agora em 2017.

É ali que a nata da sociedade brasileira curte uma festa regada a muito álcool e canapés servidos em bandejas de prata. E ainda que os baldes cheios de gelo já não tenham mais o clássico champanhe francês, a cerveja – de marca nacional – é servida gelada e em copos de cristal.

Nada neste ambiente faz referência ao período de vacas magras pelo qual o Brasil passa, com uma recessão recorde e um contigente de desempregados que supera os 14 milhões de pessoas. E ninguém também parece minimamente preocupado que o presidente Michel Temer esteja na corda bamba depois de ser atingido diretamente por um grave escândalo de corrupção, revelado pelas delações dos irmãos Joesley e Wesley Batista, da J&F.

No Jockey, o “dress code” é o item mais valorizado. Quem quer ser bem visto abusa dos chapelões, vestidos decotados e, até mesmo, conta vantagem sobre suas inúmeras cirurgias plásticas. Para aumentar ainda mais a sofisticação do lugar, no meio da tarde entram no salão sete modelos vestidas com roupas longas ao melhor estilo “vintage”.

Mas quem dá toque final neste quadro que remete à sociedade brasileira do início do século XIX é o serviço de buffet, praticamente formado somente por funcionários negros – que servem clientes majoritariamente brancos – vestidos com seu tradicional uniforme de criado: roupa preta e avental.

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Evento no Jockey Club da Gávea é uma espécie de “carnaval para os ricos” Foto: AFP

O contraste entre este mundo luxuoso e a massa de brasileiros que sofre diariamente com esta que é considerada a pior recessão de todos os tempos, entretanto, não passa totalmente despercebido pelos sócios deste seleto clube.

“Apesar de todo este glamour que vemos no Jockey, a cidade do Rio tem os piores índices de desemprego do Brasil. Esse universo nem de longe reflete o que é a nossa cidade”, reconhece Flávio Duarte, um especialista em tecnologia de 49 anos, que estava na festa com a sua mulher e sua filha de 10 anos.

Para Duarte, a festa anual do Grande Prêmio sobrevive porque o evento e a magnífica corrida de cavalos oferece aos cariocas a melhor “cara da cidade”. “As pessoas vêm porque é uma tradição que ninguém quer perder”, afirma.

Cedric Sá, um engenheiro aposentado de 70 anos, descreve a extravagância do Salão das Rossas como uma “espécie de carnaval para os ricos”. “É bom para se esquecer de todas as coisas ruins que estão acontecendo por aí, pelo menos por um dia”, concorda sua mulher, Vera Sá.

Curiosamente, este casal de aposentados não mostra nenhuma simpatia por Temer, ainda que o presidente de vertente conservadora seja visto por muitos como a última figura do “establishment”. “Se ele caísse, a festa aqui seria ainda maior”, afirma Cedric, rindo.

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O circuito da Gávea tem mais de 2.400 metros de comprimento e é considerado um dos “mais bonitos do mundo” Foto: AFP

O Grande Prêmio do Brasil, evento que ocorre em um circuito de 2.400 metros instalado nos pés do morro do Corcovado, sob os olhares do Cristo Redentor, é uma das cinco corridas da América Latina que garantem pontuação para a famosa Copa Breeders, o clássico campeonato internacional que neste ano ocorrerá na Califórnia, em novembro.

John Fulton, o representante na América do Sul da Copa Breeders, garante que o Rio de Janeiro tem um dos “hipódromos mais bonitos do mundo”. Mesmo assim, o País está muito longe de atingir seu potencial neste esporte. Desde o início da crise, em 2014, são preparados apenas dois mil cavalos de corrida puro sangue por ano – antes eram três mil. Na Argentina, por exemplo, oito mil potros (cavalos machos com menos de um ano de idade) são preparados para as corridas profissionais todos os anos, compara Fulton.

Distante destes problemas, centenas de pessoas continuam enchendo as arquibancadas do Jóquei Club carioca. No último domingo, 11, foi o “outsider” Voador Magee o grande vencedor. Uma decepção para quem tinha apostado nos cavalos favoritos como No Regrets, e uma demonstração de que hoje em dia, mais uma vez, não existe nenhuma aposta segura no Brasil. /AFP

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